Quem passa por um câncer de cabeça e pescoço costuma ouvir duas frases opostas sobre implante: “o senhor nunca mais vai poder fazer” e “pode fazer normalmente, sem problema”. Eu escuto as duas dos pacientes, e nenhuma delas é verdade. Quem acabou de atravessar um tratamento oncológico merece uma conversa mais honesta do que isso.
Neste texto eu explico o que a radiação faz no osso, o que os números mostram sobre a chance de o implante dar certo e por que a decisão nunca é tomada só no consultório odontológico. Não é um assunto para simplificar, e eu também não quero assustar ninguém.
Resposta rápida: a radioterapia é fator de risco real para o implante, mas não é contraindicação absoluta. Uma metanálise encontrou sobrevivência global de 87,8%, com risco de falha cerca de duas vezes maior em osso irradiado do que em osso não irradiado. A osteorradionecrose, a complicação mais temida, teve incidência de 1,81% em uma revisão com 753 pacientes e 2.261 implantes. A decisão é tomada junto com o oncologista e o radioterapeuta, e o planejamento é mais conservador.

O que a radiação faz no osso
A radioterapia atinge o tumor, mas também o tecido ao redor. No osso dos maxilares, ela reduz a circulação do sangue, diminui o número de células e compromete a capacidade de remodelar o osso. Em palavras simples, o osso fica com menos capacidade de cicatrizar depois de uma agressão cirúrgica.
Isso não quer dizer que o osso “morre”. Quer dizer que ele responde mais devagar e com menos margem para erro. Por isso, a mesma cirurgia que num paciente comum é rotina exige ali um planejamento mais conservador, uma técnica o menos traumática possível e um acompanhamento mais de perto. Eu marco os retornos com mais proximidade nesses casos.
O que os números dizem, de verdade
Vale separar o que assusta do que orienta. Uma metanálise publicada em 2022 na Clinical Oral Implants Research reuniu os estudos de implantes em pacientes com câncer de cabeça e pescoço e encontrou:
- Sobrevivência global do implante de 87,8%. É alta, mas abaixo dos cerca de 96% da população geral;
- Risco de falha cerca de duas vezes maior em osso irradiado (razão de chances 1,97; intervalo de confiança de 95%: 1,63 a 2,37);
- Implante em osso enxertado e irradiado falha mais do que em osso nativo irradiado (razão de chances 2,26; intervalo de 1,50 a 3,40). Esse é o dado que mais muda o plano cirúrgico: sempre que a anatomia permite, osso próprio em vez de enxerto [1].
Sobre a osteorradionecrose, que é a complicação mais temida (uma área de osso que não cicatriza depois da radiação), uma revisão de 2025 com 753 pacientes e 2.261 implantes encontrou incidência de 1,81%, sendo a mandíbula o local mais usado para implantes (62,4%) [2]. E uma metanálise de 2026, com 10.164 implantes, voltou a mostrar sobrevida menor no osso irradiado do que no não irradiado [3].
Traduzindo para a conversa de consultório: a maioria dos implantes em pacientes irradiados dá certo. O que muda é que a margem de erro é menor, então a escolha do caso e do local importa mais do que em qualquer outro cenário.

O que o planejamento precisa considerar
- Dose e campo: quanta radiação chegou exatamente à região onde o implante será colocado;
- Tempo desde o fim do tratamento: a decisão de quando operar é conjunta com a oncologia;
- Local: osso nativo em vez de área enxertada, quando a anatomia permitir;
- Boca seca (xerostomia): muda a higiene, a mucosa e o risco de cárie ao redor da prótese;
- Desenho da prótese: precisa permitir uma limpeza fácil, porque a manutenção aqui não é opcional;
- Medicações usadas, como os antirreabsortivos que aparecem em quem teve metástase óssea, assunto do texto sobre bifosfonatos e implante dentário.
Para quem tem uma doença de base, o pré-operatório inclui o relatório de risco cirúrgico do cardiologista e os exames de laboratório. O oncologista e o radioterapeuta dão a orientação sobre o tratamento do câncer, que se soma a esses exames e entra no planejamento.
Por que reabilitar mesmo assim
Essa é a parte que os números não mostram. Perder dentes junto com o tratamento oncológico atinge a alimentação, a fala e a autoimagem de alguém que já atravessou muito. Reabilitar devolve a mastigação e, com ela, a nutrição, que faz parte da recuperação e não é luxo estético. A conclusão dos próprios autores da metanálise de 2022 vai nessa direção: o tratamento de quem fez radioterapia exige planejamento individual e acompanhamento próximo, e não abstenção [1].
Quando o tratamento do câncer deixa pouco osso na maxila, o implante zigomático é uma das alternativas estudadas. Uma revisão sistemática de 2026 reuniu 294 pacientes e 679 implantes zigomáticos, com sobrevida de 97%. A técnica está explicada no texto sobre os implantes zigomáticos.
Cuidados que fazem diferença na boca irradiada
Independentemente de ter ou não implante, a boca que recebeu radioterapia pede uma rotina diferente. A saliva diminui, o que facilita a cárie e as feridas na mucosa. Alguns hábitos simples ajudam muito:
- Hidratação frequente e saliva artificial, quando o médico orientar;
- Flúor em gel ou verniz, de acordo com a indicação da equipe;
- Escovação cuidadosa e fio ou escova interdental todos os dias;
- Limpeza profissional com mais frequência do que a habitual;
- Aviso imediato ao dentista se aparecer ferida que não cicatriza, dor ou exposição de osso.
Essa rotina vale tanto para quem ainda tem os dentes quanto para quem usa prótese ou implante. É a manutenção que protege o investimento de tempo e de saúde feito em todo o tratamento.

Como costuma ser a consulta
- Conversa: tipo de câncer, quando foi a radioterapia, dose, local e quem acompanha você hoje;
- Exame: olho a boca, a mucosa, a saliva e peço a tomografia;
- Contato com a equipe: converso com o oncologista e com o radioterapeuta antes de qualquer cirurgia;
- Decisão em conjunto: se o implante é indicado, quando e em que local;
- Cirurgia: técnica conservadora, com acompanhamento próximo na cicatrização;
- Manutenção: revisões frequentes e orientação de higiene, adaptada à boca seca.
Eu sei que a pergunta “quando posso fazer?” vem carregada de ansiedade. A resposta honesta é: depende do seu caso, e não costuma ser “nunca”. Mas precisa ser decidida com quem acompanha o tratamento do câncer.
E as extrações em área irradiada?
Extrair dente em osso que recebeu radiação também exige protocolo próprio, definido junto da equipe de oncologia, por causa do risco de osteorradionecrose. Não é um procedimento de rotina, e por isso eu não recomendo adiar a conversa: se a extração for necessária, o ideal é planejar antes ou durante o tratamento do câncer, sempre com a equipe.
O que a evidência permite dizer, e o que não permite
Permite dizer que a radioterapia aumenta o risco de falha do implante, que o enxerto em osso irradiado piora esse risco e que a osteorradionecrose é rara, porém grave [1,2,3]. Não permite dizer que o implante é impossível nem que é igual ao de quem não fez radioterapia. Como os estudos são sobretudo observacionais, a decisão precisa ser individual.
Quem faz radioterapia pode fazer implante?
Em muitos casos, sim, mas com risco maior e planejamento conjunto com o oncologista e o radioterapeuta. Uma metanálise de 2026 com 10.164 implantes encontrou sobrevida menor em osso irradiado do que em osso não irradiado.
O que a radioterapia faz com os dentes e o osso?
A radiação reduz a circulação e a capacidade de reparo do osso e das glândulas salivares. Isso aumenta o risco de cárie, de boca seca e de complicações ósseas depois de cirurgias na região irradiada.
Quem fez radioterapia pode extrair dente?
Pode, mas a extração em área irradiada exige protocolo próprio, definido junto com a equipe de oncologia, por causa do risco de osteorradionecrose.
Enxerto ósseo em área irradiada é uma boa ideia?
Em geral, evita-se. Implantes em osso enxertado e irradiado falharam mais do que em osso nativo irradiado, então a preferência é por osso próprio sempre que a anatomia permitir.
Qual o risco de osteorradionecrose com implante?
Em uma revisão de 2025 com 753 pacientes e 2.261 implantes, a incidência foi de 1,81%. É baixa, mas é a complicação que mais justifica o cuidado.
Fontes
Os dados citados foram consultados no PubMed:
- Schiegnitz E, Reinicke K, Sagheb K, König J, Al-Nawas B, Grötz KA. Dental implants in patients with head and neck cancer — a systematic review and meta-analysis of the influence of radiotherapy on implant survival. Clin Oral Implants Res. 2022;33(10):967-999. DOI
- Gorjizad M, Aryannejad M, Shahriari A, et al. Osteoradionecrosis incidence and dental implant survival in irradiated head and neck cancer patients: a systematic review and meta-analysis. Spec Care Dentist. 2025;45(2):e70022. DOI
- Schimmel M, Srinivasan M, McKenna G, Müller F. Effect of advanced age and/or systemic medical conditions on dental implant survival. Clin Oral Implants Res. 2018;29(Suppl 16):311-330. DOI
- Liu Y, et al. Survival rate and risk factors of implants in patients with head and neck neoplasms: a systematic review and meta-analysis. BMC Oral Health. 2026;26(1). DOI
- Scocca V, Dell’Aversana Orabona G. Zygomatic implants for rehabilitation of head and neck cancer patients: a systematic review and meta-analysis. J Dent. 2026;170:106709. DOI
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