Reabsorção Óssea e Implante: O Que Fazer Quando Falta Osso

“No seu caso não tem mais jeito.” Eu já perdi a conta de quantas vezes ouvi essa frase contada por um paciente, geralmente com a voz baixa e os olhos no chão. Traduzindo: o osso da boca diminuiu tanto que o implante convencional não encontra onde ficar. A pessoa volta para casa, coloca a dentadura no copo e dorme com um gosto de desistência.

Se isso descreve o que você viveu, quero lhe dizer duas coisas. A primeira: você não é um caso perdido, e a frase “não tem mais jeito” raramente é a verdade inteira. A segunda: também não existe milagre, e quem promete resolver tudo em um passe de mágica está simplificando o que é complicado. Este texto fica no meio, com a conversa honesta.

Resposta rápida: quando a reabsorção óssea da maxila é severa, uma das alternativas é o implante zigomático, que se ancora no osso zigomático, na maçã do rosto, em vez de depender do osso da maxila. Em uma revisão sistemática de 2025, a taxa de sucesso dos zigomáticos foi de 96,7%, contra 97,9% dos implantes convencionais, sem diferença estatística significativa. É uma técnica exigente, com complicações próprias, como sinusite, e a indicação depende da tomografia.

Reabsorção óssea do maxilar: implante zigomático como alternativa ao enxerto, com taxa de sucesso de 96,7%

O que é a reabsorção óssea do maxilar

É a perda gradual de osso que acontece depois que os dentes são extraídos. Sem a raiz para estimular o osso, ele vai diminuindo ao longo dos anos. Isso é acelerado pelo uso de dentadura, que apoia sobre o osso e o comprime, e pela inflamação crônica da gengiva. Na maxila, a parte de cima, o osso também perde altura, e o seio maxilar (a cavidade sobre os dentes de cima) tende a descer, ocupando o espaço que sobra.

Quanto mais tempo sem os dentes, maior costuma ser a reabsorção. Foi o que expliquei também no texto sobre quanto osso é necessário para um implante. Quando a altura ou a espessura do osso cai abaixo de certo ponto, o implante convencional deixa de caber sem reconstrução.

Duas formas de enfrentar o problema

  • Reconstruir o osso: com enxerto, geralmente em etapas, esperando meses para a cicatrização antes do implante;
  • Aproveitar o osso que sobrou: com implantes inclinados, curtos ou, nos casos mais severos, zigomáticos, que se fixam no osso da bochecha.

Nenhuma é melhor em todos os casos. A primeira devolve volume, mas leva tempo e depende da cicatrização. A segunda dispensa a espera, mas exige técnica específica. A tomografia mostra qual faz sentido no seu caso. Se quiser conhecer as opções por inteiro, vale ler o texto sobre implante dentário sem osso e o guia completo do implante zigomático.

O que é o implante zigomático

É um implante mais longo do que o convencional, que atravessa a região da maxila e se fixa no osso zigomático, o osso da maçã do rosto. Esse osso é denso e costuma manter volume mesmo quando a maxila reabsorveu bastante. Em muitos casos, a prótese provisória fixa é instalada no mesmo dia ou em poucos dias, e a pessoa não passa meses sem dentes fixos.

Não se trata de uma técnica nova, mas de uma técnica que exige treino específico, planejamento digital e experiência. É por isso que poucos profissionais a oferecem, e é por isso também que a conversa sobre indicação precisa ser cuidadosa.

Dois caminhos para a maxila reabsorvida: enxerto ou implante zigomático

O que os estudos mostram

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 reuniu 15 estudos com 1.555 implantes zigomáticos pela técnica externalizada e 1.865 convencionais. A taxa de sucesso foi de 96,7% para os zigomáticos e 97,9% para os convencionais, sem diferença estatística significativa. A complicação mais frequente foi sinusite (cerca de 3%), seguida de infecção (cerca de 1,6%). Os próprios autores ressaltam que apenas três dos estudos tinham baixo risco de viés, e que a evidência é limitada [1].

Uma revisão de revisões de 2026 chegou a conclusão parecida: alta sobrevida dos implantes e baixa incidência de complicações cirúrgicas, mas com complicações possivelmente subestimadas pela diferença entre os estudos. As mais comuns foram sinusite e infecção do tecido ao redor; as mais raras e graves incluem a penetração na órbita e a visão dupla [2]. É um assunto que merece ser dito com todas as letras.

E a revisão Cochrane de 2026, que só aceitou ensaios clínicos randomizados, encontrou apenas dois, com 3 anos de acompanhamento. No maior, com 71 pessoas, os zigomáticos provavelmente reduziram as falhas de implante e o tempo até a prótese, e provavelmente aumentaram as complicações [3].

Quando eu penso duas vezes

  • Sinusite ativa ou crônica não tratada: é preciso resolver antes;
  • Doenças que atrapalham a cicatrização, como diabetes sem controle e cigarro;
  • Anatomia do seio ou da bochecha que não comporta o implante, vista na tomografia;
  • Expectativa irreal de que tudo se resolve sem manutenção e sem cuidado;
  • Casos em que há osso suficiente para soluções mais simples, que valem mais a pena.

Sempre que a tomografia mostra um caminho mais simples, eu prefiro o mais simples. Técnica complexa não é motivo de orgulho: é recurso para quem precisa.

O que muda no dia a dia depois do tratamento

Para quem vinha de anos de dentadura que escorrega, a diferença na mastigação costuma ser a primeira coisa que as pessoas comentam. Comer carne, morder uma fruta, rir sem medo de a prótese soltar: são coisas pequenas que viram o assunto da consulta de retorno. Mas é preciso falar também do outro lado: a limpeza de uma prótese fixa sobre implantes exige método e paciência, e as revisões fazem parte do tratamento para sempre.

Mitos que eu ouço

“Quem não tem osso não pode ter dentes fixos”

Em muitos casos pode, dependendo do que a tomografia mostra. O que não dá é dizer sim ou não antes de ver o exame.

“O zigomático é uma cirurgia sem risco”

Não existe cirurgia sem risco. A complicação mais comum é a sinusite, que costuma ter tratamento, mas existem complicações raras mais sérias, e é por isso que a escolha de quem opera e o planejamento importam.

“Enxerto é sempre a escolha mais segura”

Nem sempre. O enxerto também tem riscos e leva mais tempo, e há casos em que a reconstrução não se sustenta. Cada caminho tem seus prós e contras.

Em resumo: a pergunta que importa não é se o seu caso é “impossível”, mas o que o seu osso permite e quais riscos você aceita. A resposta vem do exame, e a decisão é sua.

Perguntas para fazer antes de decidir sobre implante em maxila com pouco osso

Como costuma ser a consulta

  1. Conversa: sua história, o que já foi tentado, como você mastiga hoje;
  2. Exame: boca, gengiva, mordida e tomografia;
  3. Mostrar o osso: abro o exame na tela e explico região por região;
  4. Opções: o que cada caminho entrega, quanto tempo leva e quais são os riscos;
  5. Planejamento: se o zigomático é indicado, planejamos em 3D, definimos a anestesia e a sedação com o médico anestesista, e combinamos o pré-operatório.

O pré-operatório de quem vai a uma cirurgia desse porte inclui o relatório de risco cirúrgico do cardiologista e exames de laboratório. A sedação, quando indicada, é sempre aplicada pelo médico anestesista, e sem acompanhante ela não é feita.

O que a evidência permite dizer, e o que não permite

Permite dizer que, em maxilas muito reabsorvidas, os zigomáticos têm taxa de sucesso alta, comparável à dos implantes convencionais em estudos reunidos, e que dispensam o enxerto e a espera [1,3]. Não permite dizer que resolvem “qualquer caso impossível”, nem que são isentos de complicações [2]. A base de evidência é pequena, e quem promete certeza está prometendo mais do que a ciência sustenta.

Existe implante para quem “quase não tem osso”?

Sim. Para perdas ósseas severas, técnicas como os implantes zigomáticos e inclinados aproveitam estruturas ósseas alternativas, permitindo dentes fixos sem enxerto em muitos casos. A indicação depende da tomografia.

Casos considerados impossíveis realmente têm solução?

Muitos casos rotulados como “sem solução” têm alternativas, mas nem todos. Só o exame mostra o que é possível, e uma conversa honesta inclui os limites e os riscos.

O implante zigomático tem riscos?

Tem. A complicação mais frequente é a sinusite, em torno de 3% em uma revisão de 2025. Complicações mais raras e graves existem. A técnica é exigente e a escolha de quem opera importa.

Quanto tempo leva para ter dentes fixos?

Em muitos casos a prótese provisória fixa é instalada no mesmo dia ou em poucos dias, enquanto o enxerto pode levar mais de um ano até a prótese. A prótese definitiva vem depois da cicatrização.

A dentadura piora a perda de osso?

Pode acelerar, porque apoia sobre o osso e o comprime. Por isso quem usa dentadura há muito tempo costuma ter mais reabsorção.

Fontes

[1] Rebelo HL, et al. Effectiveness of zygomatic implants using the externalized technique in the rehabilitation of atrophic maxillae: a systematic review with meta-analysis. Med Oral Patol Oral Cir Bucal. 2025;30(6):e774-e786. doi:10.4317/medoral.27117 (PubMed).

[2] D’Ambrosio F, et al. Clinical risk and medico-legal implications in zygomatic implant rehabilitation: an umbrella review of systematic reviews. Diagnostics (Basel). 2026;16(6). doi:10.3390/diagnostics16060901 (PubMed).

[3] Visconti RF, Greco K, Cotticelli C, Ambrosi A, Esposito MA. Interventions for replacing missing teeth: zygomatic implants for the rehabilitation of the severely atrophic edentulous maxilla. Cochrane Database Syst Rev. 2026;7:CD004151. doi:10.1002/14651858.CD004151.pub4 (PubMed).

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