“Doutor, outro dentista me disse que eu não tenho osso para implante. O senhor acha que eu me encaixo no zigomático?” É uma das conversas mais frequentes no meu consultório, e quase sempre vem com um cansaço atrás da pergunta: a pessoa já ouviu “não dá” uma ou duas vezes, usa dentadura há anos e já não sabe mais em quem acreditar.
Neste texto eu explico quem costuma ser indicado para o implante zigomático, o que eu olho na consulta, em que situações outro caminho faz mais sentido e o que os estudos mostram sobre resultado e sinusite. Nada aqui confirma o seu caso: quem confirma é o exame de imagem. Mas ajuda você a chegar mais preparado.

Para quem a técnica foi pensada
O implante zigomático foi desenvolvido para a perda óssea severa da maxila. É o caso de quem usa dentadura (prótese total removível) há muitos anos, de quem perdeu os dentes de cima há bastante tempo, ou de quem já tentou enxerto ósseo e não funcionou. Quando os dentes somem, o osso que os sustentava vai sendo reabsorvido, e com o tempo ele fica fino demais ou baixo demais para receber um implante convencional.
O osso zigomático, da maçã do rosto, é mais denso e sofre menos com essa reabsorção. Por isso o implante pode ancorar nele, atravessando ou passando rente ao seio da face, e sustentar a prótese de cima sem depender do osso que se perdeu.
O que eu olho na consulta
Cada caso é um caso, mas há um conjunto de perguntas que eu faço sempre:
- Quanto osso existe na maxila? Quanto menos, mais a técnica tende a fazer sentido, porque o convencional dependeria de enxerto e de meses de espera.
- O que já foi tentado? Quem ouviu “não dá” por falta de osso, ou fez enxerto que não deu certo, costuma ser justamente o perfil para o qual a técnica foi pensada.
- Como está a sua saúde? Pressão, diabetes, coração, remédios. Eu peço o relatório de risco cirúrgico do cardiologista e exames de laboratório, e converso com os outros médicos quando é preciso.
- Qual é a reabilitação que faz sentido? O zigomático é mais frequente na arcada superior inteira, combinado ou não com implantes convencionais na parte da frente.
- Como está o seio da face? Esse exame faz parte do planejamento, e não da correção depois.
Nenhum desses pontos, sozinho, confirma ou descarta a indicação. É a leitura do conjunto que decide. Na consulta eu peço a tomografia, abro a imagem na tela e mostro a você o osso que existe, o que falta e onde ficariam os implantes. Você participa da decisão olhando o próprio exame.

Quando outro caminho faz mais sentido
Nem todo mundo com perda óssea precisa de zigomático, e isso é uma boa notícia. Se ainda há osso suficiente, ou se um enxerto tradicional resolve o caso com uma cirurgia mais simples, o convencional, com ou sem enxerto, pode ser o caminho mais adequado. A técnica certa é a que resolve o seu caso, e não a mais avançada por padrão. Se quiser comparar, leia sobre o enxerto ósseo na maxila superior e sobre quanto osso é necessário para um implante.
O que os estudos mostram
Eu gosto de falar de números com franqueza. Uma revisão sistemática de 2023, com 2.194 implantes zigomáticos em 918 pacientes, encontrou sobrevivência entre 90,3% e 100%, dependendo da técnica cirúrgica. Em reabilitações com quatro zigomáticos, uma meta-análise de 2021 encontrou sobrevivência agrupada de 98%.
A complicação mais citada é a sinusite. Na revisão de 2023, ela apareceu em 9,53% dos casos com a técnica original e em 4,39% com a abordagem guiada pela anatomia. Na meta-análise dos quatro zigomáticos, foi de 12%. Isso quer dizer que a técnica importa e que o seio precisa ser avaliado antes. Quem já tem sinusite crônica não está automaticamente fora: o seio é examinado antes da cirurgia, e não depois. Detalhes em sinusite crônica e implante zigomático e em sinusite após implante dentário.
Perguntas que eu mais ouço
Existe idade máxima?
Não. O que pesa é o estado de saúde e o risco da cirurgia, avaliados caso a caso, e não a data de nascimento. Muitos pacientes mais velhos chegam a essa técnica justamente porque já perderam muito osso.
E se eu fumo?
Fumar não é contraindicação absoluta, mas aumenta a chance de complicação e de falha. Entra na conversa antes da cirurgia, e o plano e as orientações de pós-operatório mudam para quem fuma.
Fiz enxerto e não deu certo. Posso fazer?
Sim, e é um dos cenários mais comuns. Como o implante ancora no osso da bochecha, ele não depende do osso da maxila que falhou. Eu preciso olhar o que restou da região enxertada.
Sou obrigado a ter tentado o convencional antes?
Não. É comum que a pessoa chegue ao zigomático depois de ouvir que não tem osso suficiente, mas não é regra. A decisão vem do exame de imagem.
Como é a cirurgia e a sedação
A cirurgia é feita em ambiente adequado, e em alguns casos zigomáticos ela é feita com anestesia geral, em centro cirúrgico. Quando há sedação, ela é sempre aplicada pelo médico anestesista, e sem acompanhante a sedação não é feita. Se o medo é o que mais pesa, leia implante com sedação.
Para entender a técnica em detalhe, a cirurgia e a recuperação, o guia completo do implante zigomático e o texto sobre o protocolo zigomático aprofundam cada etapa. Sobre durabilidade, veja quanto tempo dura o implante zigomático.
Depois da cirurgia: o acompanhamento faz parte
Quem passa por uma reabilitação desse porte precisa de acompanhamento mais próximo no começo. Eu marco os retornos com mais proximidade nas primeiras semanas, para conferir a cicatrização, a mordida e a limpeza, e depois espaço as revisões conforme a sua evolução. Em casa, a higiene da região entre a prótese e a gengiva é decisiva, e eu ensino isso com a sua prótese na mão. A rotina está em como limpar o implante dentário.
Também vale lembrar do seio da face: pressão de um lado só, secreção com cheiro ruim ou gosto estranho que não melhoram merecem um aviso à equipe, e não uma espera. Quanto antes a causa é vista, mais simples costuma ser o tratamento.
O que você pode fazer antes da consulta
- Reunir as tomografias e radiografias que você já tem, mesmo as antigas.
- Anotar quais dentistas já avaliaram o seu caso e o que cada um disse.
- Fazer a lista dos remédios que você usa e das doenças que acompanha.
- Levar quem decide junto com você, para olhar a imagem na mesma hora.
- Escrever as suas dúvidas. Nenhuma pergunta é pequena para esse tipo de decisão.
Com isso em mãos, a consulta rende mais, e eu consigo dar uma resposta honesta já na primeira conversa, mostrando o que a imagem permite dizer.
O que a evidência permite dizer, e o que não permite
Permite dizer que o implante zigomático é uma técnica descrita e estudada para a perda óssea severa da maxila, com sobrevivência alta nas revisões citadas e com a sinusite como complicação mais frequente, cuja ocorrência varia com a técnica.
Não permite dizer que você é ou não é candidato sem exame, nem prometer que não haverá complicações. Os estudos reúnem pacientes e técnicas diferentes, os acompanhamentos variam, e os números são médias. O seu caso é o seu caso, e só a tomografia e o exame clínico podem dizer.

Perguntas frequentes
Quem pode fazer implante zigomático?
Em geral, quem tem perda óssea severa na maxila e não tem osso suficiente para o implante convencional. Quem confirma é a tomografia, junto com o exame clínico e o histórico de saúde.
Existe idade máxima para o implante zigomático?
Não. O que define a indicação é o estado de saúde e o risco cirúrgico, avaliados caso a caso.
Quem tem sinusite crônica pode fazer implante zigomático?
Não é uma contraindicação automática, mas o seio maxilar precisa ser avaliado antes da cirurgia. A sinusite é a complicação mais citada da técnica, com frequências entre 4% e 12% nas revisões que consultei.
Quem já fez enxerto que não deu certo pode fazer zigomático?
Sim, e é um dos cenários mais comuns. O implante zigomático ancora no osso da bochecha, e não depende do osso da maxila que falhou.
Fumar impede o implante zigomático?
Não impede de forma absoluta, mas aumenta o risco de complicação e de falha. O plano e as orientações de pós-operatório mudam para quem fuma.
A consulta inicial já confirma se sou candidato?
Sim, com o exame clínico e a tomografia. Informações gerais, como as deste texto, ajudam a entender o raciocínio, mas não substituem o exame individual.
Fontes
- Kämmerer PW, Fan S, Aparicio C, et al. Evaluation of surgical techniques in survival rate and complications of zygomatic implants. Int J Implant Dent. 2023;9(1):11. doi:10.1186/s40729-023-00478-y
- Lan K, Wang F, Huang W, Davó R, Wu Y. Quad zygomatic implants: a systematic review and meta-analysis on survival and complications. Int J Oral Maxillofac Implants. 2021;36(1):21-29. doi:10.11607/jomi.8417
Quem pergunta se pode fazer o zigomático costuma ter ouvido outras coisas no caminho. Reuni os mitos mais comuns sobre implante dentário e zigomático e o que os estudos dizem.
Agende sua consulta inicial em Natal-RN
Se você já ouviu que não tem osso para o implante e quer entender quais caminhos existem para o seu caso, o primeiro passo é uma consulta inicial com o Dr. Daniel Coutinho (CRO-RN 2966), no Tirol. Leve os seus exames de imagem. A Carolina, na recepção, explica como funciona e também orienta sobre o que levar no dia, para que você chegue sem pressa e com todas as dúvidas anotadas.
Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.

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