Protocolo dentário: porcelana ou resina?

Protocolo dentário de porcelana ou de resina? Veja o que os estudos mostram sobre fratura, desgaste, gengiva e manutenção, e o que pesa na escolha.

“Doutor, o meu vai ser de porcelana ou de resina?” Quase sempre essa pergunta chega pronta, trazida de alguém da família, de um vídeo ou de outro consultório. E quase sempre vem com uma ideia por trás: a de que um material é bom e o outro é ruim.

Não é assim. Os dois têm lugar. Cada um tem pontos fortes e pontos fracos, e a escolha depende muito mais da sua boca do que do material em si. Vou explicar do jeito que eu explico na cadeira.

Resposta rápida: Não existe um material que sirva para todos. O protocolo de resina é mais leve, mais fácil de consertar e desgasta mais com o tempo. O de porcelana (cerâmica sobre metal ou zircônia) desgasta menos e mantém a cor, mas, quando lasca, o conserto é mais trabalhoso. Os estudos não mostram diferença na sobrevivência dos implantes entre os dois. Quem define é a sua mordida, o espaço disponível, a arcada de cima e de baixo e a sua rotina de higiene.

Primeiro, o que é o protocolo

Protocolo é o nome que se usa no Brasil para a prótese fixa de uma arcada inteira, parafusada sobre implantes. Ela substitui os dentes e, muitas vezes, parte da gengiva que se perdeu junto com o osso. Você não remove em casa; quem remove, quando precisa, é o dentista.

Por dentro, quase todo protocolo tem uma estrutura rígida, uma barra de metal ou uma peça de zircônia, que une os implantes. Por fora, vêm os dentes e a gengiva artificial. A pergunta “porcelana ou resina” é, na verdade, sobre do que é feita essa parte de fora.

As três versões mais comuns

TipoDo que é feitoPontos fortesPontos de atenção
Resina sobre barra metálicaDentes de resina e gengiva de resina sobre metalMais leve, absorve impacto, conserto rápidoDesgasta, pode manchar, troca de dentes com o tempo
Cerâmica sobre metal (porcelana)Cerâmica aplicada sobre estrutura metálicaDesgasta pouco, mantém cor e brilhoLascar a cerâmica é a complicação mais comum; conserto mais trabalhoso
ZircôniaBloco de zircônia, monolítico ou com cerâmica por cimaMuito resistente, boa estéticaCom cerâmica por cima, lasca com frequência; peça rígida e mais difícil de ajustar

O que os estudos mostram

Aqui eu gosto de usar números, porque eles tiram a conversa do “achismo”.

Uma revisão que comparou protocolo de resina com protocolo de cerâmica sobre metal não encontrou diferença na perda de implantes nem na perda da prótese. Encontrou, porém, mais desgaste e mais fratura de dentes no grupo de resina, e mais inflamação ao redor dos implantes, o que provavelmente tem a ver com a superfície da resina e com a dificuldade de limpeza em alguns desenhos.

Do outro lado, a cerâmica tem a sua fraqueza. Em uma revisão de protocolos de zircônia com cerâmica por cima, a cerâmica lascou em cerca de um terço dos casos em cinco anos. Outra revisão, de zircônia, encontrou falha de prótese baixa (perto de 1,4%), mas pequenas lascas em cerca de 15% delas. A zircônia monolítica, sem cerâmica por cima, tende a lascar menos, mas os estudos de longo prazo ainda são poucos.

Uma visão geral de várias revisões resume bem: as próteses fixas de arcada inteira têm sobrevivência alta, de 93% a 100% em cinco a dez anos, mas nenhum material pode ser considerado o material de escolha. Complicações técnicas acontecem com todos. A pergunta muda de “qual é melhor?” para “qual complicação eu prefiro administrar no meu caso?”.

O que pesa na escolha, na prática

  • Força da mordida e apertamento. Quem aperta ou range os dentes desgasta a resina mais rápido e lasca a cerâmica com mais facilidade. Nesses casos, a placa de proteção para dormir faz parte do tratamento.
  • O que está do outro lado. Se a arcada oposta tem dentes naturais ou outra prótese, o material de cima e o de baixo precisam conversar, para um não desgastar o outro.
  • Espaço disponível. Quem perdeu muito osso tem mais espaço entre as arcadas, e isso muda a espessura e o peso da prótese.
  • Higiene. Um protocolo bem desenhado deixa passar o fio, a escova interdental e o irrigador. Isso vale mais do que o material.
  • Estética e expectativa. A cerâmica e a zircônia mantêm o brilho. A resina pode ficar mais opaca e amarelar com o tempo, café e cigarro.

“Protocolo dá mau hálito?”

Não deveria. Quando aparece, quase sempre é comida presa sob a prótese ou inflamação na gengiva ao redor dos implantes. Isso depende do desenho da prótese, da limpeza em casa e das revisões. É um dos motivos pelos quais eu insisto tanto em como limpar o implante no dia a dia e em manutenção periódica.

E o provisório?

Na maioria dos casos de carga imediata, a primeira prótese, a provisória, é de resina. Ela acompanha a fase em que os implantes se integram ao osso e permite ajustar mordida, fala e estética antes da peça definitiva. Às vezes a pessoa se adapta tão bem que pergunta se precisa trocar. A conversa sobre o material definitivo acontece nessa fase, com a boca já funcionando.

Dá para mudar de ideia depois?

Na maior parte dos casos, sim. Os implantes continuam os mesmos; o que muda é a prótese. Uma pessoa que começou com resina pode, anos depois, fazer uma prótese de cerâmica ou zircônia sobre os mesmos implantes, se o planejamento permitir.

Como eu conduzo essa escolha

Eu não escolho o material antes de examinar. Olho a mordida, o espaço, a arcada oposta, a gengiva, os hábitos, e pergunto o que a pessoa espera. A tomografia mostra o osso e ajuda a planejar a posição dos implantes, que também influencia o desenho da prótese. Você sai com o seu diagnóstico pronto, na minha visão clínica, e com os prós e contras de cada material para o seu caso, explicados sem pressa.

Como especialista em Implantodontia e em Prótese Dentária, eu acompanho as duas partes, a cirurgia e a prótese, e isso ajuda a pensar a prótese desde o começo, e não só no fim.

O que a evidência permite dizer

A sobrevivência dos implantes e das próteses de arcada inteira é alta com qualquer material. O que muda entre eles é o tipo de complicação: desgaste e troca de dentes na resina, lascas na cerâmica.

Os estudos têm amostras pequenas e acompanhamentos curtos para a zircônia monolítica. Eles servem para orientar a conversa, não para prometer quanto tempo uma prótese vai durar sem manutenção.

  • Estrin N et al. Clinical outcomes of metal-ceramic versus metal-acrylic resin implant-supported fixed complete dental prostheses: a systematic review and meta-analysis. Int J Prosthodont. 2023;36(3):354-365. doi:10.11607/ijp.7592
  • Karasan D et al. The influence of patient-related factors and material selection on the clinical outcomes of fixed and removable complete implant prostheses: an overview on systematic reviews. Int J Prosthodont. 2021;34:s46-s62. doi:10.11607/ijp.7070
  • Pieralli S et al. Clinical outcomes of partial and full-arch all-ceramic implant-supported fixed dental prostheses. A systematic review and meta-analysis. Clin Oral Implants Res. 2018;29 Suppl 18:224-236. doi:10.1111/clr.13345
  • Bidra AS, Rungruanganunt P, Gauthier M. Clinical outcomes of full arch fixed implant-supported zirconia prostheses: a systematic review. Eur J Oral Implantol. 2017;10 Suppl 1:35-45. PMID 28944367.

Perguntas frequentes

Protocolo de porcelana ou de resina: qual dura mais?

Os estudos não mostram diferença na sobrevivência dos implantes nem da prótese. A resina desgasta mais e pode precisar trocar dentes com o tempo; a cerâmica desgasta menos, mas pode lascar.

Protocolo de resina fica amarelo?

Com o tempo, a resina pode perder brilho e manchar, principalmente com café, chá e cigarro. Polimento nas revisões ajuda; a cerâmica e a zircônia mantêm a cor por mais tempo.

Protocolo dentário dá mau hálito?

Não deveria. Quando aparece, costuma ser comida presa ou inflamação na gengiva ao redor dos implantes. O desenho da prótese, a limpeza em casa e as revisões resolvem a maior parte dos casos.

Posso trocar o protocolo de resina por porcelana depois?

Na maior parte dos casos, sim. Os implantes são mantidos e uma nova prótese é feita sobre eles, se o planejamento permitir.

O protocolo de cima e o de baixo podem ser de materiais diferentes?

Podem. O importante é que os materiais conversem entre si e com a força da mordida, para um não desgastar o outro.

Porcelana ou resina não é uma escolha de catálogo. É uma decisão que se toma olhando a sua boca, e que pode até mudar ao longo dos anos.

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Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.