“Doutor, qual é o certo: All-on-4 ou All-on-6?” Eu escuto essa pergunta quase toda semana, geralmente de quem passou a noite lendo na internet e chegou com a cabeça cheia de números. A resposta honesta me irrita um pouco por ser sem graça: depende da tomografia, não do nome.
Neste texto eu explico a diferença de forma simples, o que os estudos dizem sobre durabilidade e complicações, e quais perguntas valem a pena levar para a consulta. Não vou apontar um vencedor, porque ele não existe.
Resposta rápida: All-on-4 usa quatro implantes, com os dois de trás inclinados para aproveitar o osso disponível e evitar estruturas como o seio maxilar. All-on-6 usa seis, dividindo a carga da mordida em mais pontos. A escolha vem da quantidade e da qualidade do osso na tomografia, do tamanho da prótese e dos hábitos de mordida do paciente, não de preferência de marca. Mais implantes não é automaticamente mais seguro: é uma resposta a uma necessidade estrutural específica.

O que os dois protocolos têm em comum
Os dois substituem uma arcada inteira de dentes perdidos por uma prótese fixa apoiada em implantes. Em geral, a pessoa sai da cirurgia com uma prótese provisória, e a definitiva vem depois que o osso cicatriza e as gengivas assentam. Os dois evitam a dentadura removível, e nenhum depende de enxerto ósseo prévio quando o caso é bem indicado.
A diferença real está em quantos pontos de apoio existem e em como a força da mastigação se distribui entre eles. É só isso. O resto é conversa de vendedor.
All-on-4: quatro implantes, dois inclinados
No All-on-4, os dois implantes de trás são colocados em ângulo, não retos. A inclinação permite alcançar uma área de osso mais firme e contornar estruturas anatômicas sensíveis, como o seio maxilar na parte de cima e o nervo na de baixo, sem precisar de enxerto. Costuma ser indicado quando há osso suficiente na frente, mas pouco osso atrás. É muito comum em quem perdeu os dentes há muitos anos, porque o osso vai diminuindo com o tempo.
Existe bastante pesquisa sobre ele. Um estudo retrospectivo italiano acompanhou 156 implantes colocados com a técnica All-on-4 por 5 a 14 anos (média de 9) e encontrou sobrevida cumulativa dos implantes de 97,4%, com perda óssea média de 1,3 mm [1]. Um segundo estudo, chinês, com 56 pessoas e acompanhamento de 1 a 4 anos, encontrou sobrevida de 99,38% dos implantes e 100% das próteses [2].
Agora, a parte que costuma ser omitida nas propagandas: no estudo italiano, a taxa de sucesso (que exige saúde ao redor do implante, não só ele estar firme) foi de 77,4%, e a peri-implantite, uma inflamação que destrói o osso em volta, apareceu em 26,5% dos pacientes [1]. Ou seja: o implante ficava no lugar, mas uma em cada quatro pessoas teve inflamação em algum deles. Esse número me importa mais do que o de sobrevida, porque é ele que define a rotina de manutenção.
All-on-6: mais pontos de apoio
O All-on-6 acrescenta dois implantes, e a carga se divide entre seis apoios. Isso costuma fazer sentido quando o osso comporta esses implantes adicionais, quando a prótese vai ser mais longa (mais dentes em balanço na parte de trás) ou quando a pessoa tem hábitos que aumentam a força, como ranger os dentes.
Aqui, a pesquisa que eu encontrei merece cuidado na leitura. Um estudo de bancada de 2026 comparou próteses de zircônia sobre 4 e sobre 6 implantes e concluiu que o número de implantes não mudou de forma significativa a resistência à fratura; o que mudou muito foi o balanço: quando a força caía na ponta da prótese (cantilever), a resistência despencava e a peça descolava [3]. É um estudo de laboratório, não de gente, então não prova nada sobre a vida real. Mas ensina um ponto que eu repito sempre: o comprimento do balanço pesa tanto quanto o número de implantes.
- Mais implantes distribuem a carga, mas exigem osso para recebê-los;
- Menos implantes bem posicionados podem funcionar muito bem quando o osso é limitado;
- Balanço (cantilever) longo é um ponto de fragilidade em qualquer dos dois;
- A decisão de cada caso sai da tomografia e da análise da mordida.

Qual dos dois é o certo? A pergunta que eu desmonto
É comum encontrar texto dizendo que um protocolo é superior ao outro. Na prática clínica, cada um tem a sua indicação, e os resultados são comparáveis quando bem planejados para o caso certo. A pergunta mais útil não é “qual é superior”. É “qual dos dois resolve o meu caso específico”. E essa resposta vem de exame de imagem, não de marketing de protocolo.
Dois profissionais podem chegar a indicações diferentes para o mesmo caso. Isso é normal. O que não é normal é a indicação vir antes da tomografia.
O que costuma pesar na decisão
- Quantidade e qualidade do osso, na tomografia, na frente e atrás;
- Posição do seio maxilar na arcada de cima e do nervo na de baixo;
- Hábito de ranger os dentes, que aumenta a carga sobre a prótese;
- Tamanho da prótese e comprimento do balanço;
- Saúde da gengiva e da boca como um todo;
- Hábitos como cigarro e doenças como diabetes, que mudam a cicatrização.
O estudo chinês que citei apontou cigarro, bruxismo, doença sistêmica, implante inclinado, local na mandíbula e comprimento do balanço como fatores associados à perda de osso ao redor dos implantes [2]. Eu leio isso como um lembrete: parte do sucesso está no que você faz depois da cirurgia, e não só no que eu faço dentro dela.
O que costuma dar problema depois
Aqui eu preciso ser direto. Em estudo alemão com 91 próteses fixas totais sobre implantes, acompanhadas por até 17 anos, a sobrevida das próteses foi de 92,3% e 4,2% dos implantes foram removidos. Mas metade das próteses teve alguma complicação, e a mais comum foi técnica: lascamento ou fratura do revestimento da prótese [4]. Complicações biológicas, como a peri-implantite, foram menos frequentes nesse grupo, mas existem.
Eu traduzo assim para o paciente: prótese fixa sobre implantes é um tratamento muito previsível, mas não é “colocou e esqueceu”. Ela pede revisão, e às vezes um conserto, ao longo dos anos. Por isso eu gosto de explicar isso antes de começar, e não depois do primeiro retorno.
Como costuma ser a rotina
- Consulta inicial: converso, examino a boca e peço a tomografia, quando você ainda não a tem.
- Planejamento: com a tomografia, vemos quanto osso existe, onde estão o seio e o nervo e qual protocolo o seu caso comporta.
- Cirurgia: planejada, com anestesia e, quando o paciente quer ou precisa, com sedação aplicada pelo médico anestesista. Sem acompanhante, a sedação não é feita.
- Prótese provisória: em muitos casos entregue logo após a cirurgia, com orientação de alimentação mole nas primeiras semanas.
- Cicatrização: o osso se une aos implantes durante alguns meses, com retornos de controle.
- Prótese definitiva: feita depois que a gengiva assentou, com ajuste de mordida.
- Manutenção: revisões periódicas e limpeza profissional, para sempre.

Perguntas que eu levaria para a consulta
- Pela minha tomografia, quanto osso eu tenho na frente e atrás?
- Por que quatro (ou seis) implantes no meu caso?
- Haverá balanço na prótese? De que tamanho?
- Como é a manutenção, com que frequência e com quem?
- O que acontece se um implante falhar?
- Meu ranger de dentes foi considerado, e vou precisar de placa para dormir?
Se quem atende não responde essas perguntas com a tomografia aberta na sua frente, vale a pena pedir uma segunda opinião. Eu mesmo gosto de ver o exame com o paciente, na tela, apontando cada região.
O que a evidência permite dizer, e o que não permite
Permite dizer que o conceito All-on-4 (e as variações com cinco ou seis implantes) tem boa sobrevida de implantes e de próteses em acompanhamentos de anos [1,2], e que as complicações mais frequentes são técnicas, com a inflamação ao redor do implante sendo a principal preocupação biológica [1,4]. Não permite dizer que seis é mais seguro do que quatro, nem o contrário: os dados de laboratório que eu citei não respondem à pergunta clínica [3], e a comparação direta, em pessoas, ainda tem pouca evidência de qualidade.
All-on-6 é mais seguro que All-on-4 por ter mais implantes?
Não necessariamente. Mais implantes dividem a carga, mas o All-on-4 foi desenhado justamente para casos em que o osso não comporta seis com segurança. A segurança vem da indicação correta, não do número.
Posso escolher o protocolo sozinho?
A decisão é do cirurgião, a partir da tomografia, da mordida e da prótese planejada. Dá para conversar sobre preferências, mas a indicação clínica pesa mais do que a preferência.
Dá para passar de All-on-4 para All-on-6 depois?
Em alguns casos, sim, e isso é definido na consulta, a partir da clínica, e não como ajuste feito depois sem necessidade.
Quem range os dentes pode fazer?
Pode, mas o ranger costuma pesar na decisão a favor de mais pontos de apoio e do uso de placa de proteção à noite depois do tratamento.
A prótese pode quebrar?
Pode. Em estudos de longo prazo, a complicação mais frequente é o lascamento do revestimento da prótese. Por isso as revisões periódicas fazem parte do tratamento.
A cirurgia é feita com sedação?
Quando indicada, a sedação é feita por médico anestesista, nunca pelo dentista. Sem acompanhante, a sedação não é feita.
Fontes
[1] Tironi F, et al. Implants placed with the All-on-4 technique: a radiographic retrospective study on 156 implants with a 5- to 14-year follow-up. Int J Periodontics Restorative Dent. 2023;43(5):606-613. doi:10.11607/prd.6013 (PubMed).
[2] Yang Q, et al. Implant survival rate and marginal bone loss with the all-on-4 immediate-loading strategy: a clinical retrospective study with 1 to 4 years of follow-up. J Prosthet Dent. 2022;130(6):849-857. doi:10.1016/j.prosdent.2021.12.020 (PubMed).
[3] Zhou D, et al. Fracture resistance and failure modes in 4- vs. 6-implant supported zirconia full-arch prostheses with and without cantilevers. J Adv Prosthodont. 2026;18(3):182-190. doi:10.4047/jap.2026.18.3.182 (PubMed).
[4] Pelser D, et al. Technical and biological complications of implant-supported fixed complete dentures: a retrospective cohort study with up to 17 years of follow-up. Int J Implant Dent. 2026;12(1). doi:10.1186/s40729-026-00689-z (PubMed).
A resposta certa está na sua tomografia
Antes de decidir entre All-on-4 e All-on-6 com base no que leu por aí, vale uma consulta inicial com tomografia. Você sai com o seu diagnóstico pronto, na visão clínica do Dr. Daniel. A Carolina, na recepção, explica como funciona.
Leia também
Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.

[…] leituras relacionadas: All-on-4 ou All-on-6, quando a opção é a prótese fixa sobre implantes; o que fazer quando a dentadura quebra; e a […]
[…] A carga imediata costuma ser feita sobre um protocolo; a escolha entre quatro ou seis implantes está explicada em All-on-4 ou All-on-6: qual protocolo é o certo para o seu caso. […]