Perdi todos os dentes: o que fazer agora

Perdi todos os dentes: e agora? Veja os caminhos possíveis, da dentadura à prótese fixa sobre implantes, e o que define qual serve para o seu caso.

Algumas pessoas chegam à minha cadeira e não conseguem dizer a frase inteira. Começam com “doutor, eu…” e param. Depois vem, quase em voz baixa: “eu perdi todos os dentes”.

Não existe vergonha nisso. Perder os dentes quase nunca é falta de cuidado de uma vez só. É uma soma de anos: um dente que doeu e foi arrancado porque era o que dava para fazer, uma ponte que soltou, uma gengiva que foi cedendo, um trabalho, uma família, uma vida que veio antes. Eu ouço essas histórias todos os dias. O que importa agora é outra pergunta: o que dá para fazer a partir daqui?

Resposta rápida: Quem perdeu todos os dentes tem caminhos diferentes: dentadura convencional, dentadura presa em implantes (removível) ou dentes fixos sobre implantes, o chamado protocolo. Quando falta muito osso na parte de cima, existem técnicas como o implante zigomático. O que define o caminho de cada pessoa é a quantidade e o lugar do osso, visto na tomografia, junto com a saúde geral e o que ela espera do tratamento.

Primeiro: cuidar do que precisa ser cuidado agora

Antes de pensar em dentes novos, eu olho se há algo pedindo atenção imediata: raízes que ficaram, inflamação na gengiva, feridas causadas por uma dentadura que machuca, infecção. Isso vem primeiro, porque nenhum tratamento bem planejado começa em cima de um problema ativo.

Se os dentes foram arrancados há pouco tempo, o osso ainda está se remodelando. Se foram há muitos anos, é provável que ele tenha diminuído. As duas situações têm solução, mas são planejadas de jeitos diferentes.

Por que o osso importa tanto

O dente estimula o osso ao redor dele toda vez que você mastiga. Quando o dente sai, esse estímulo some, e o osso daquela região vai diminuindo com o tempo. A maior parte dessa perda costuma acontecer nos primeiros meses depois da extração, e ela continua, mais devagar, ao longo dos anos. Na parte de cima, o seio maxilar ainda ocupa espaço, e a altura de osso disponível pode ficar pequena.

É por isso que uma mesma pessoa pode ouvir em dois lugares respostas diferentes. Ter pouco osso para uma técnica não quer dizer ter pouco osso para todas. Escrevi sobre essa frase em boca sem osso: o que isso significa e quais são as opções.

Os caminhos possíveis, um por um

CaminhoComo éPara quem costuma servir
Dentadura convencionalPrótese removível apoiada na gengivaQuem não pode ou não quer cirurgia; também como fase provisória
Dentadura presa em implantes (overdenture)Removível, mas encaixada em 2 a 4 implantes; não fica soltaQuem quer mais firmeza, principalmente na arcada de baixo
Dentes fixos sobre implantes (protocolo)Prótese parafusada nos implantes; só o dentista removeQuem quer dentes fixos e tem osso, ou pode ganhar apoio
Implante zigomáticoImplante apoiado no osso da maçã do rostoQuem perdeu muito osso na parte de cima

Dentadura convencional. É o caminho mais simples e, para algumas pessoas, o mais adequado. A de cima costuma parar bem, porque se apoia no céu da boca. A de baixo é a que mais incomoda: a área de apoio é menor e a língua empurra. Se você já sente que a dentadura está mudando o seu rosto, vale conversar.

Dentadura presa em implantes. Dois implantes na arcada de baixo já mudam muito a firmeza da prótese. Os estudos que compararam essa opção com a dentadura comum mostram mais satisfação, mais conforto e melhor fala para quem tem os implantes. Ela continua removível: sai para limpar.

Dentes fixos sobre implantes. É o protocolo. A prótese é parafusada e você não tira em casa. Para muita gente, é o que mais se aproxima da sensação de ter dentes de novo. Escrevi sobre como trocar a dentadura por dentes fixos e sobre quantos implantes um protocolo precisa.

Quando falta osso em cima. O enxerto ósseo resolve alguns casos. Em outros, a indicação é apoiar os implantes no osso zigomático, a maçã do rosto. É uma técnica com indicação precisa, não uma solução para todos. O guia do implante zigomático explica quem pode e como é a recuperação.

“Dá para sair com dentes no mesmo dia?”

Em parte dos casos, sim. Quando o osso permite que os implantes fiquem firmes desde o início, é possível instalar uma prótese provisória fixa em poucos dias. É o que se chama de carga imediata. Mas isso depende do osso, da força da mordida e da saúde da pessoa, e só se sabe depois da tomografia. Prefiro não prometer prazo antes de ver o exame. Expliquei o assunto em dentes fixos em 2 dias: quando a carga imediata é real.

O que a saúde geral muda

Diabetes, pressão alta, osteoporose, problemas de coração, remédios para afinar o sangue: quase nada disso impede o tratamento. Muda o preparo. Peço exames antes de planejar e, para quem tem doença cardíaca, o relatório de risco cirúrgico do cardiologista. Se for indicada sedação, quem faz é sempre o médico anestesista.

Os passos, na ordem em que acontecem

  • Consulta inicial: conversa, exame da boca, da gengiva e da mordida, e o que você espera.
  • Tomografia: mostra quanto osso existe e onde. É ela que decide a técnica.
  • Diagnóstico e plano: você sai com o seu diagnóstico pronto, na minha visão clínica, com as opções que servem para o seu caso.
  • Preparo: exames de sangue e, quando necessário, avaliação médica.
  • Cirurgia e prótese provisória.
  • Prótese definitiva, depois que os implantes se integram ao osso.
  • Manutenção periódica, para o resultado durar.

Se alguém decide o tratamento junto com você, um filho, um marido, uma esposa, essa pessoa pode vir à consulta. Escolham o dia que for melhor para os dois. Se o seu tratamento é importante para ela, vale a pena reservar alguns minutos para ouvir o seu caso junto com você.

Uma palavra sobre tempo

Muita gente me pergunta se pode esperar. Pode. A hora de tratar é decisão sua e depende de muita coisa além da boca. A única informação que eu acho justo dar é esta: o osso que não recebe estímulo tende a continuar diminuindo, e o caso de hoje raramente é igual ao de daqui a alguns anos. Não digo isso para apressar ninguém. Digo porque ajuda a decidir com clareza.

O que a evidência permite dizer

As revisões que compararam dentadura convencional e dentadura presa em implantes, principalmente na arcada de baixo, mostram mais satisfação, conforto, estabilidade e fala com os implantes. Em estética e higiene, a diferença não foi consistente.

Esses estudos medem o que o paciente sente, e muitos têm amostras pequenas. Eles mostram a direção, não garantem o resultado de cada pessoa.

  • Egido Moreno S et al. Evaluation of the quality of life and satisfaction in patients using complete dentures versus mandibular overdentures. Systematic review and meta-analysis. Clin Exp Dent Res. 2021;7(2):231-241. doi:10.1002/cre2.347
  • Nogueira TE, Dias DR, Leles CR. Mandibular complete denture versus single-implant overdenture: a systematic review of patient-reported outcomes. J Oral Rehabil. 2017;44(12):1004-1016. doi:10.1111/joor.12550

Perguntas frequentes

Perdi todos os dentes. Posso colocar implante?

Na maioria dos casos, sim. O que define a técnica é a quantidade e o lugar do osso, visto na tomografia, e a sua saúde geral.

Quanto tempo depois de arrancar os dentes posso fazer implante?

Depende do caso. Às vezes o implante é instalado no mesmo dia da extração; às vezes é melhor esperar a cicatrização. A tomografia e o exame clínico definem.

Dá para sair com dentes fixos no mesmo dia?

Em parte dos casos, sim, com carga imediata, quando os implantes ficam firmes desde o início. Isso só se sabe depois da tomografia.

Quem não tem osso pode fazer implante?

Muitas vezes, sim. Existem enxerto ósseo e técnicas que usam outros ossos da face, como o implante zigomático. A indicação é individual.

Dentadura ou implante: qual escolher?

Não existe resposta igual para todos. A dentadura é mais simples; a dentadura presa em implantes dá firmeza; os dentes fixos sobre implantes não saem da boca. O caminho certo depende do osso, da saúde e do que você espera.

Perder os dentes não é o fim da história. É o ponto de partida de um planejamento. E esse planejamento começa com uma conversa e um exame, não com uma promessa.

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Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.