Implante Dentário Sem Parafuso: Essa Técnica Existe?

Implante dentário sem parafuso: existe de verdade? Entenda a diferença entre o implante em si e o tipo de retenção da coroa final, e desconfie de promessas de tecnologia revolucionária.

Quase toda semana alguém me pergunta, na consulta ou pelo WhatsApp da Carolina: “doutor, existe implante sem parafuso?”. A pergunta parece simples, mas por baixo dela moram, quase sempre, duas dúvidas diferentes. Saber qual das duas é a sua muda a resposta por inteiro.

Vou explicar do jeito que explico na cadeira: primeiro as peças do implante, depois o que o “parafuso” quer dizer em cada uma e, por fim, o que eu olharia com desconfiança numa propaganda.

Resposta rápida: praticamente todo implante moderno é, sim, rosqueado. O formato de parafuso é o que dá a fixação inicial no osso e permite a osseointegração. Onde a expressão “sem parafuso” costuma se aplicar de verdade é no dente que aparece na boca: ele pode ser preso por um parafuso interno (retenção parafusada, com um furinho depois tampado) ou por cimento (retenção cimentada, sem furo aparente). É a segunda opção que a maioria das pessoas está procurando.

Implante dentário sem parafuso: quase todo implante tem rosca, a dúvida é sobre a coroa

Primeiro, as três peças de um implante

Quando falo de implante com o paciente, gosto de começar pelo básico, porque o implante não é uma peça só. São três:

  • O implante: a peça de titânio, com formato de parafuso, que fica dentro do osso e faz o papel da raiz.
  • O pilar: a peça intermediária que atravessa a gengiva e faz a ligação entre o implante e o dente.
  • A coroa: o dente propriamente dito, o que você vê quando sorri.

Então, quando alguém fala em “sem parafuso”, a primeira coisa que pergunto é: de qual das três peças estamos falando? Quase sempre a confusão nasce aí.

O implante em si: por que ele tem rosca

A rosca não é enfeite. Ela aumenta a área de contato com o osso e dá estabilidade logo no dia da cirurgia, antes mesmo de a osseointegração se completar. A osseointegração é o processo em que o osso cresce e se une ao titânio, e leva alguns meses. Durante esse tempo, quem segura o implante firme é a rosca.

Já existiram implantes de outros formatos, cilíndricos, que entravam por pressão. Foram ficando de lado porque davam menos previsibilidade. Hoje são raros e não representam o padrão de tratamento. Por isso, se alguém lhe oferece um “implante sem rosca” como novidade, vale a curiosidade: é uma ideia que a odontologia já testou e deixou para trás.

A dúvida de verdade: o dente tem parafuso?

Depois que o implante integra ao osso, o dente que fica à vista pode ser fixado de duas maneiras. É aqui que mora a maior parte do mal-entendido.

Coroa parafusada

Um parafuso pequeno prende a coroa por dentro. O furo de acesso é fechado com resina da cor do dente e, no dia a dia, quase não se percebe. A grande vantagem é a manutenção: se um dia for preciso mexer na peça, ela sai sem ser quebrada.

Coroa cimentada

A coroa é colada com cimento odontológico. Não existe furo nenhum, e em algumas posições o resultado estético é mais previsível. A desvantagem é que remover depois dá mais trabalho. E há um ponto que eu levo a sério nesse tipo de coroa: o excesso de cimento. Se sobra cimento escondido embaixo da gengiva, ele pode irritar o tecido e entrar na lista de causas de inflamação ao redor do implante.

Para você ter uma ideia, um estudo de 2025 examinou com um pequeno endoscópio 46 pacientes que já tinham inflamação ao redor de coroas cimentadas e encontrou restos de cimento sob a gengiva em 80% deles. É um estudo observacional, então não prova que o cimento causou o problema. Mas mostra por que essa etapa pede técnica e conferência. Isso não quer dizer que a cimentada seja ruim; quer dizer que ela exige cuidado.

Então, qual das duas escolher?

Nenhuma vence sempre, e eu desconfio de quem diz o contrário. Uma revisão sistemática de 2014, que reuniu 73 estudos, calculou a sobrevida em cinco anos: 96,0% para as cimentadas e 95,6% para as parafusadas, sem diferença estatística. O mesmo trabalho viu menos complicações técnicas e biológicas, no conjunto, nas parafusadas.

Na prática, a escolha depende de poucas coisas: a posição do dente na arcada, o ângulo do implante, a necessidade estética daquela região e o quanto pesa, para você e para mim, a facilidade de manutenção no futuro. Nos dentes de trás, onde a estética pesa menos, a parafusada costuma ser preferida justamente pela facilidade de manutenção. Nos dentes da frente, a decisão é mais individual.

Implante dentário sem parafuso: coroa parafusada ou cimentada

E nas próteses fixas de arcada inteira?

Quando a pessoa perdeu todos os dentes de uma arcada e vai receber uma prótese fixa sobre vários implantes, o mais comum é a retenção parafusada. O motivo é prático: a peça precisa poder sair, para limpeza profissional e para qualquer ajuste, sem ser destruída. Você pode ler como esse tipo de tratamento funciona no guia de implantes dentários.

O parafuso da coroa pode afrouxar? A coroa pode soltar?

Pode, nos dois casos, e vale saber disso antes. O parafuso de uma coroa parafusada pode afrouxar com o tempo, e a solução costuma ser simples: um reaperto no consultório. A coroa cimentada pode perder a retenção e soltar, e então é recolada.

Não é motivo de susto, é motivo de revisão. Por isso eu insisto na visita de manutenção: é ali que eu confiro o aperto, a mordida e a saúde da gengiva ao redor, antes de qualquer coisa virar problema. O tema da durabilidade está detalhado em taxa de sucesso do implante dentário.

Cuidado com a promessa de “implante sem parafuso” ou “sem cirurgia”

Vale desconfiar de qualquer material que trate “sem parafuso” como uma tecnologia nova que substitui o implante convencional. Na maior parte das vezes, é só uma confusão de termos com a coroa cimentada, e não uma técnica nova e superior.

O mesmo vale para “implante sem cirurgia”. Existem técnicas com menos incisão e recuperação mais tranquila, mas colocar uma peça de titânio dentro do osso é sempre um procedimento cirúrgico, feito com anestesia. Se a promessa serve para qualquer pessoa, sem exame, sem tomografia e sem conversa, o sinal de alerta já acendeu.

O que você pode perguntar ao seu dentista

Se você já tem implante, ou está para fazer, estas perguntas ajudam muito:

  • Minha coroa é parafusada ou cimentada, e por quê no meu caso?
  • Se precisar de manutenção, como a coroa é retirada?
  • Como o excesso de cimento é conferido, se a coroa for cimentada?
  • Qual é a marca e o modelo do meu implante? Pode me entregar esse registro?
  • Com que frequência devo voltar para a revisão?

Peça sempre o registro do implante (marca, modelo e medida). Se um dia você mudar de cidade ou de dentista, essa informação evita muita dor de cabeça.

Como eu decido, na consulta inicial

Na consulta inicial eu não começo pela peça. Começo pela sua boca e pela sua história. Olho a mordida, vejo se você range ou aperta os dentes, observo o espaço que existe entre os dentes vizinhos e a altura da gengiva. Quando o caso pede, a tomografia entra para eu enxergar o osso e a posição em que o implante pode ficar.

Só depois eu converso sobre o tipo de retenção. Explico o que cada uma significa para o seu dia a dia, o que muda na manutenção e o que eu espero que aconteça com o tempo. Não digo isso para apressar ninguém: a decisão é sua, e eu quero que você saia entendendo cada passo, inclusive o que não está sob o meu controle, como a sua higiene em casa e a regularidade das revisões.

E se eu já tenho implante e quero trocar o tipo de coroa?

Essa pergunta também aparece. Em muitos casos dá para trocar uma coroa por outra, mas isso depende da posição do pilar e da condição da gengiva e do osso ao redor. Não é algo que eu prometa antes de examinar. Se você tem uma coroa que solta com frequência ou um furo que incomoda, vale levar o caso para uma consulta, porque a causa nem sempre é o tipo de retenção.

Implante dentário sem parafuso: perguntas para levar ao dentista

Perguntas frequentes

Existe implante dentário que não é rosqueado?

Existiu, no formato cilíndrico, mas caiu em desuso por oferecer menos previsibilidade. O padrão atual é o implante rosqueado, que dá mais estabilidade inicial.

Coroa cimentada é pior que coroa parafusada?

Não é superior nem inferior de forma absoluta. As revisões mostram sobrevida parecida, em torno de 96% em cinco anos. A parafusada tem a vantagem da manutenção; a cimentada pede atenção ao excesso de cimento.

Dá para ver o parafuso na coroa parafusada?

O furo de acesso é fechado com resina da cor do dente e, no dia a dia, fica praticamente imperceptível.

Qual tipo de retenção é mais fácil de consertar?

A parafusada, porque a coroa pode ser retirada sem ser danificada, para ajuste ou manutenção.

“Implante sem parafuso” é uma técnica nova e melhor?

Em geral, não. Costuma ser uma confusão de termos com a retenção cimentada da coroa, e não uma tecnologia de implante diferente.

O parafuso da coroa pode afrouxar com o tempo?

Pode. É uma das complicações técnicas conhecidas e costuma ser resolvida com um reaperto no consultório, por isso as revisões periódicas são importantes.

O caminho mais seguro é uma consulta, não uma busca na internet

Se a sua dúvida é sobre o tipo de coroa ou sobre qual sistema de implante serve para o seu caso, o ideal é conversarmos pessoalmente. Na consulta inicial eu olho a boca, a mordida e, quando preciso, a tomografia. Você sai com o seu diagnóstico pronto, na visão clínica do Dr. Daniel. Eu sou Daniel Coutinho, CRO-RN 2966, especialista em Implantodontia pela FOP-UNICAMP, e atendo em Natal-RN.

Fontes

  • Wittneben JG, Millen C, Brägger U. Clinical performance of screw- versus cement-retained fixed implant-supported reconstructions: a systematic review. Int J Oral Maxillofac Implants. 2014;29 Suppl:84-98. doi:10.11607/jomi.2014suppl.g2.1
  • Montevecchi M, et al. Excess cement and peri-implant disease: a cross-sectional clinical endoscopic study. J Periodontol. 2025;96(9):965-973. doi:10.1002/JPER.24-0510

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Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.

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