Quando o dente cai, não é só o dente que desaba

O dente caiu num momento bobo. Um pão, uma mordida leve, uma pequena pressão, e algo cedeu. Às vezes não dói. Às vezes dói mais na alma do que na gengiva. Quase todo paciente me conta esse momento com um certo constrangimento, como se tivesse perdido mais do que um dente.

Se você está nessa situação, quero começar por uma coisa que repito sempre: não é culpa. Dente se perde por muitas razões, e quase nunca é uma só. O que eu quero explicar neste texto é o que acontece de verdade no osso depois que o dente vai embora, por que o tempo importa e o que dá para fazer, tenha sido ontem ou anos atrás.

Resposta rápida: depois da perda do dente, o osso que sustentava a raiz deixa de receber estímulo e reabsorve aos poucos. Em uma revisão sistemática, a largura do rebordo diminuiu em média 3,87 mm e a altura, cerca de 1,5 a 1,7 mm depois da extração, com perda maior na largura do que na altura. Por isso, quanto antes a reposição é planejada, maior a chance de usar técnicas convencionais, sem enxerto. Mas isso não quer dizer que depois de anos não haja caminho.

Perda óssea depois da perda do dente: o osso diminui, principalmente em largura

O que acontece com o osso

O osso que envolve o dente existe, em boa parte, por causa do dente. A raiz recebe a força da mastigação e passa essa força ao osso, que se mantém firme em resposta. Quando o dente sai, o estímulo acaba. O osso, que é um tecido vivo e econômico, começa a diminuir naquele local.

A revisão de Van der Weijden e colegas, que reuniu 12 estudos sobre o que acontece depois da extração, encontrou uma diminuição média de 3,87 mm na largura do rebordo, uma perda de altura de cerca de 1,67 mm na face externa e de 1,53 mm no topo, avaliada por radiografia [1]. A largura perde mais do que a altura, e isso importa porque o implante precisa de largura para ficar rodeado de osso.

Essa perda não acontece toda de uma vez. Ela é mais rápida nos primeiros meses e continua, mais devagar, nos anos seguintes. Por isso se diz que o primeiro ano é o mais importante para quem pensa em preservar o osso.

O que o corpo faz quando falta um dente

  • O osso vai diminuindo no local;
  • Os dentes vizinhos tombam em direção ao espaço;
  • O dente oposto “desce” ou “sobe” por falta de contato;
  • A mordida se desalinha e a mastigação passa a se concentrar em um lado;
  • Músculos e articulação trabalham em posição diferente, o que pode causar dor;
  • Com o tempo, o contorno do rosto pode mudar, porque o osso é o suporte dos tecidos moles.

Nenhuma dessas mudanças é culpa de ninguém. É assim que o corpo funciona. A boa notícia é que boa parte delas pode ser interrompida, e algumas revertidas, com um plano.

O que acontece na boca quando um dente é perdido e não é reposto

Por que o tempo importa

Quando o implante é colocado logo depois da extração, ou em poucas semanas, o osso costuma estar mais preservado. Uma metanálise sobre implantes colocados imediatamente depois da extração encontrou que, nesses casos, ainda ocorre uma redução de 0,5 a 1,0 mm no osso em torno do implante nos primeiros 4 a 12 meses, e que a espessura da parede de osso na face externa do dente foi o principal fator associado a essa perda [2]. Ou seja: mesmo no cenário mais favorável, existe alguma perda. A questão é quanto.

Quando o tempo passa sem reposição, o osso vai diminuindo e, em algum momento, o implante convencional deixa de caber sem reconstrução. É por isso que eu digo que agir cedo aumenta as chances de resolver com técnicas mais simples. Mas não digo que é tarde demais depois: há caminhos para quem já perdeu muito osso.

E quando já passou muito tempo

Aqui entram as alternativas. Dependendo do que a tomografia mostra, é possível considerar enxertos, implantes mais curtos ou inclinados, ou, em casos de maxila muito atrofiada, os implantes zigomáticos, que se apoiam no osso da bochecha. Cada caminho tem vantagens e limites, e o texto sobre implante dentário sem osso conta as opções reais.

O que eu não faço é prometer que sempre dá para resolver do jeito mais simples. A tomografia é que diz. Eu abro o exame na tela, mostro o osso que existe e o que se perdeu, e a conversa passa a ser concreta.

Mitos sobre perder um dente

“Se o dente de trás caiu, não faz falta”

Faz. O dente de trás é o que mais trabalha na mastigação. Sem ele, os outros assumem a carga, o osso diminui e a mordida se desalinha, mesmo que o sorriso pareça igual.

“Prótese removível resolve e não precisa mais pensar nisso”

Ela devolve parte da função, mas não estimula o osso, que continua diminuindo sob ela. Com o tempo, a prótese deixa de se ajustar bem e precisa de reembasamentos. Cada pessoa tem uma história diferente, e vale conversar sobre isso.

“Quem perdeu muito osso não tem mais opção”

Não é verdade. Há alternativas, e a tomografia mostra quais fazem sentido no caso. O que não vale é decidir sem ver o exame.

Se a sua dúvida for “será que ainda dá tempo no meu caso?”, a resposta honesta é que só o exame diz. Mas, na minha experiência, quem chega com a dúvida costuma estar em uma situação mais favorável do que imagina.

O que fazer logo depois de perder um dente

O peso que não aparece na tomografia

Existe um peso emocional que eu vejo todos os dias: a pessoa que evita sorrir em fotos, que mastiga só de um lado, que deixa de aceitar convites para comer fora, que se retrai em reuniões. Esse peso se acumula em silêncio. Quem o carrega muitas vezes acha que “é frescura” ou “é a idade”. Não é. É consequência real de uma perda real, e merece cuidado.

Quando alguém me diz “perdi um dente”, eu escuto também o que vem junto: a vergonha, o receio de ouvir uma notícia ruim, o medo de uma cirurgia grande. Por isso eu começo a consulta pela conversa, e só depois pelo exame. Entender o que a pessoa está sentindo faz parte do diagnóstico.

O que fazer logo depois de perder um dente

  • Procure o dentista em poucas semanas, se possível antes de o osso diminuir muito;
  • Pergunte sobre preservar o alvéolo (o espaço onde estava a raiz) quando a extração é planejada;
  • Mantenha a higiene da região e dos dentes vizinhos;
  • Evite mastigar muito do lado oposto o tempo todo, para não sobrecarregar;
  • Tire dúvidas sobre prótese provisória, se o dente for da frente;
  • Leve exames e radiografias que você já tenha.

Para entender por que a falta de dentes afeta mais do que a mastigação, leia também o texto sobre por que a falta de dentes afeta mais do que só a mastigação.

Como costuma ser a consulta

  1. Conversa: quando o dente se perdeu, o que mudou, o que você sente;
  2. Exame: boca, gengiva, mordida e tomografia;
  3. Mostrar o osso: eu abro o exame e explico o que existe, o que se perdeu e o que isso permite;
  4. Opções: o que cada caminho entrega, quanto tempo leva e quais são os limites;
  5. Seu diagnóstico pronto: você sai com o seu diagnóstico pronto, na visão clínica do Dr. Daniel.

O que a evidência permite dizer, e o que não permite

Permite dizer que o osso diminui depois da extração, mais em largura do que em altura, e que agir cedo preserva mais osso [1,2]. Não permite dizer que depois de certo tempo nada mais pode ser feito, nem que um implante imediato elimina toda a perda. Os números são médias de grupos; o seu osso é o que importa, e ele só se conhece pelo exame.

O que acontece quando se perde um dente?

O osso que sustentava a raiz deixa de ser estimulado e diminui aos poucos. Os dentes vizinhos tendem a tombar para o espaço, o dente oposto se desloca e a mordida pode se desalinhar.

A perda de um dente afeta os outros?

Afeta. Os vizinhos se inclinam, o dente oposto se desloca e a sobrecarga se concentra nos que ficaram. Com o tempo isso pode causar desgaste e dor.

Por que repor o dente perdido não deve ser adiado?

Porque o osso diminui com o tempo, principalmente no primeiro ano, e quanto mais osso se perde, mais complexo pode ficar o tratamento.

Perder um dente muda a mordida?

Pode mudar. A mordida se reorganiza em torno do espaço, o que pode causar sobrecarga em alguns dentes, desgaste e desconforto na articulação.

Depois de muito tempo ainda dá para fazer implante?

Em muitos casos, sim, mas o caminho depende do osso que restou. A tomografia mostra se cabe um implante convencional ou se é preciso outra técnica.

Fontes

[1] Van der Weijden F, Dell’Acqua F, Slot DE. Alveolar bone dimensional changes of post-extraction sockets in humans: a systematic review. J Clin Periodontol. 2009;36(12):1048-1058. doi:10.1111/j.1600-051X.2009.01482.x (PubMed).

[2] Lee CT, Chiu TS, Chuang SK, Tarnow D, Stoupel J. Alterations of the bone dimension following immediate implant placement into extraction socket: systematic review and meta-analysis. J Clin Periodontol. 2014;41(9):914-926. doi:10.1111/jcpe.12276 (PubMed).

Agende sua consulta inicial em Natal-RN

Cada caso tem particularidades que só um exame clínico e a tomografia revelam. Se você quer entender quais caminhos existem para a sua situação, o primeiro passo é uma consulta inicial com o Dr. Daniel Coutinho (CRO-RN 2966), no Tirol. A Carolina, na recepção, explica como funciona.

Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.