Implantes Dentários e Doença de von Willebrand: Cuidados Essenciais com Dr. Daniel Coutinho

“Doutor, eu tenho von Willebrand. Posso fazer implante?” Essa pergunta chega quase sempre com um tom de quem já ouviu um “não” antes, ou de quem teve um sangramento que não parava depois de uma extração e ficou com medo de qualquer cirurgia na boca. Eu entendo o receio. Um sangramento difícil de controlar é uma experiência que a pessoa não esquece.

A resposta honesta é: em muitos casos pode, mas não é uma cirurgia que se faz como em qualquer outro paciente. Neste texto eu explico o que é a doença, o que os estudos mostram sobre implante em quem tem distúrbio de coagulação, como o preparo costuma ser feito junto com o hematologista e o que eu não consigo prometer. Se você está em Natal-RN e pesquisando esse assunto, vai sair daqui sabendo o que perguntar.

Resposta rápida: pessoas com doença de von Willebrand podem, em muitos casos, receber implantes dentários, desde que a cirurgia seja planejada junto com o hematologista. O preparo pode incluir reposição do fator, medicamentos que ajudam o coágulo a se manter e materiais para controlar o sangramento no local, com acompanhamento mais próximo depois. A literatura sobre implantes nessa condição é, em sua maior parte, de relatos e séries de casos; por isso a indicação é sempre individual.

Implante dentário e doença de von Willebrand em Natal-RN: preparo junto ao hematologista

O que é a doença de von Willebrand

A doença de von Willebrand é um distúrbio hereditário da coagulação. Falta, ou funciona mal, uma proteína do sangue chamada fator de von Willebrand, que ajuda as plaquetas a se juntarem e a formar o coágulo no ponto em que o vaso foi cortado. Sem ela, o sangramento demora mais para parar.

Existem tipos e graus diferentes. Em algumas pessoas a doença é leve e só aparece diante de uma cirurgia; em outras é mais intensa e já dá sinais no dia a dia. Os sinais que eu pergunto na consulta são estes:

  • Sangramento no nariz ou na gengiva que demora a parar;
  • Hematomas que aparecem com facilidade;
  • Menstruação muito intensa ou prolongada;
  • Sangramento prolongado depois de uma extração ou de outra cirurgia;
  • Parentes próximos com distúrbio de coagulação.

Eu insisto nessa conversa porque muita gente descobre a doença na cadeira do dentista. Um relato publicado em 2025 descreve um homem de 32 anos, sem nenhum problema de saúde conhecido, que teve um sangramento intenso na extração de um siso incluso e que não cedeu às medidas locais. Só depois disso o hematologista confirmou von Willebrand tipo I. Nas extrações seguintes, com um protocolo feito sob medida, não houve sangramento [1]. A lição do relato é a mesma que eu repito: a história de sangramento precisa ser perguntada antes, e não descoberta durante.

O que os estudos mostram sobre implante e distúrbios de coagulação

Vou ser direto sobre a qualidade da evidência, porque isso importa para quem vai decidir. Uma revisão de 2023 sobre implantes em pacientes com distúrbios de sangramento encontrou 17 artigos sobre distúrbios congênitos da coagulação, e a maior parte eram relatos e séries de casos. A conclusão dos autores é que, apesar do baixo nível de evidência, os implantes podem ser colocados com segurança nesses pacientes, desde que haja investigação prévia cuidadosa e medidas locais e pós-operatórias para controlar o sangramento [2].

Um estudo retrospectivo de um hospital universitário na França acompanhou 83 pessoas com distúrbios hereditários de sangramento (hemofilia, von Willebrand e outros) que fizeram cirurgias orais, entre elas colocação de implantes. Doze tiveram alguma complicação de sangramento, o que dá 14,5%, e todas foram resolvidas com tratamento local e, quando indicado, injeção do fator. A complicação mais séria foi o surgimento de um inibidor do fator VIII em um paciente com hemofilia A. Os autores não encontraram diferença significativa entre a cirurgia no osso e a cirurgia só em tecido mole, mas o intervalo estatístico é largo e o número de pacientes é pequeno [3]. Em outras palavras: o sangramento pode acontecer, costuma ser manejável, e o benefício e o risco precisam ser pesados antes.

Existe também um relato de 2026 de uma paciente de 48 anos com von Willebrand tipo 2A que fez extração de todos os dentes comprometidos, enxerto ósseo e implantes imediatos sob anestesia geral, com reposição do fator e antifibrinolítico. Houve boa cicatrização e os implantes foram depois reabilitados com prótese. Os autores dizem que é o primeiro caso de reabilitação de boca toda com implantes em von Willebrand que conhecem [4]. É um caso só. Mostra que é possível, não que seja a regra.

Implante em distúrbios de coagulação: o que os estudos mostram sobre sangramento

Como o preparo costuma ser feito

Aqui está a parte que muda tudo, e que não depende de mim sozinho. O hematologista é quem define o tipo e a gravidade da doença e o que o paciente precisa antes da cirurgia. Eu preciso desse relatório antes de marcar a cirurgia. E, como acontece com todo paciente que vai operar, eu também peço o relatório de risco cirúrgico do cardiologista e os exames de laboratório: hemoglobina glicada, glicemia de jejum, hemograma e coagulograma. A orientação do hematologista soma-se a isso, não substitui nada.

Dependendo do caso, o hematologista pode indicar:

  • Reposição do fator de von Willebrand antes e, às vezes, depois da cirurgia;
  • Desmopressina (DDAVP), um medicamento que faz o próprio organismo liberar mais fator, em formas mais leves da doença;
  • Ácido tranexâmico, um antifibrinolítico, para o coágulo não se desfazer cedo demais.

Uma observação que considero importante: uma revisão da Cochrane de 2019 procurou ensaios clínicos sobre antifibrinolíticos em extrações dentárias de pessoas com hemofilia ou von Willebrand. Encontrou dois ensaios pequenos, só em hemofilia, que mostraram menos sangramento, e nenhum em von Willebrand. Os autores concluem que não dá para afirmar eficácia comprovada [5]. Isso não quer dizer que o medicamento não ajude em von Willebrand; quer dizer que a prática se apoia mais em experiência e em protocolos do que em ensaios. Por isso a decisão fica com o hematologista, caso a caso.

O que eu faço na cirurgia

O meu foco é agredir o tecido o mínimo possível e deixar o local pronto para controlar o sangramento. Na prática, isso envolve planejar bem pela tomografia, operar com cuidado, usar agentes hemostáticos locais (esponjas, selantes e outros materiais que ajudam o coágulo a se formar) e fechar o local com pontos bem feitos. Um estudo australiano com 34 extrações em 32 pacientes com distúrbios hereditários testou um protocolo com um selante de trombina e gelatina, somado ao antifibrinolítico, no lugar da reposição de fator. A taxa de sangramento foi de 11,8%, sem diferença estatística em relação ao protocolo tradicional [6]. É um estudo pequeno, de extrações, e não de implantes, então eu o uso como pista do que ajuda localmente, não como regra.

Se houver sedação, quem a aplica é sempre o médico anestesista, e ela só é feita com acompanhante. Em casos mais extensos, como a reabilitação de várias áreas ou os implantes zigomáticos, o hematologista pode preferir que a cirurgia seja feita em ambiente hospitalar, com observação depois. Isso é uma conduta de segurança, e não um sinal de que algo vai dar errado.

O que levar à consulta de implante se você tem doença de von Willebrand

Depois da cirurgia

Nas primeiras 48 horas eu quero você observando o local e me avisando de qualquer sangramento que não pare com a compressão que eu orientar. Marco os retornos com mais proximidade do que em um paciente sem distúrbio de coagulação, e deixo o contato da equipe à sua disposição. Em geral as orientações são:

  • Alimentação fria e mole nos primeiros dias, sem esforço na área operada;
  • Medicamentos para dor combinados antes com o hematologista, porque alguns anti-inflamatórios, como o ibuprofeno, interferem na coagulação e podem ser evitados;
  • Não bochechar com força nem cuspir repetidamente no primeiro dia;
  • Contato imediato com a equipe diante de sangramento persistente.

Se você usa também algum remédio que afina o sangue, o assunto muda de figura e merece sua própria conversa. Eu falo disso no texto sobre anticoagulante e implante.

Quando eu digo que talvez não seja o momento

Existem situações em que eu prefiro esperar. Se a doença ainda não foi bem avaliada ou controlada pelo hematologista, se faltam exames, ou se o procedimento planejado é muito extenso para o preparo disponível, eu adio ou proponho dividir a reabilitação em etapas menores. Não digo isso para frustrar ninguém, e sim porque a cirurgia só acontece quando o preparo estiver completo. Para muitas pessoas, um plano em etapas é o caminho mais seguro.

O que levar para a consulta inicial

  • O nome do seu hematologista e o relatório mais recente, com o tipo e a gravidade da doença;
  • A lista de remédios que você usa, inclusive os sem receita;
  • Episódios anteriores de sangramento depois de extração ou cirurgia, e como foram resolvidos;
  • Exames de imagem que você já tenha;
  • O seu acompanhante, se possível, para ouvir junto as orientações.

Na consulta eu peço a tomografia e mostro na tela o que ela revela. Você sai com o seu diagnóstico pronto, na visão clínica do Dr. Daniel, e com clareza do que falta para a cirurgia acontecer com segurança.

O que a evidência permite dizer, e o que não permite

Permite dizer que implantes e cirurgias orais podem ser realizados com segurança aceitável em pessoas com distúrbios hereditários de coagulação, desde que haja investigação prévia, preparo conduzido pelo hematologista e controle local do sangramento [2,3,4]. Não permite dizer que o sangramento não acontece: em um estudo hospitalar, 14,5% tiveram alguma complicação [3]. Também não permite apontar um protocolo único como o melhor, porque a maior parte das publicações são relatos e séries pequenas [2,5].

Quem tem doença de von Willebrand pode fazer implante dentário?

Em muitos casos, sim, com planejamento junto ao hematologista. A indicação depende do tipo e da gravidade da doença e do tamanho da cirurgia.

A cirurgia de implante causa muito sangramento em quem tem esse distúrbio?

Pode haver mais sangramento do que o habitual, e por isso o preparo existe. Em um estudo hospitalar com 83 pessoas com distúrbios hereditários, 14,5% tiveram complicação de sangramento, todas manejadas.

Preciso ficar internado?

Na maioria dos casos de implantes simples, não. Em formas mais intensas da doença ou em cirurgias extensas, o hematologista pode recomendar ambiente hospitalar ou observação.

Que exames preciso levar?

O relatório do hematologista, o relatório de risco cirúrgico do cardiologista e os exames de laboratório que eu solicitar, como hemoglobina glicada, glicemia de jejum, hemograma e coagulograma.

Preciso avisar o dentista sobre problemas de coagulação?

Sempre. Conte também sobre sangramentos anteriores e sobre parentes com o distúrbio, porque muita gente só descobre a doença depois de uma cirurgia.

Fontes

  • [1] Ascani G, et al. Managing oral surgery in von Willebrand disease: lessons from a challenging case. J Clin Exp Dent. 2025;17(6):e742-e745. doi:10.4317/jced.62620
  • [2] Bacci C, et al. Bleeding disorders and dental implants: review and clinical indications. J Clin Med. 2023;12(14):4757. doi:10.3390/jcm12144757
  • [3] Fribourg E, et al. Oral surgery in people with inherited bleeding disorder: a retrospective study. Haemophilia. 2024;30(4):943-949. doi:10.1111/hae.15055
  • [4] Alnuaimy ZA, et al. Full-arch dental implant rehabilitation in a patient with von Willebrand disease: a case report. Int J Surg Case Rep. 2026;138(4):1327-1330. doi:10.1097/RC9.0000000000000184
  • [5] van Galen KP, et al. Antifibrinolytic therapy for preventing oral bleeding in patients with haemophilia or von Willebrand disease undergoing minor oral surgery or dental extractions. Cochrane Database Syst Rev. 2019;4:CD011385. doi:10.1002/14651858.CD011385.pub3
  • [6] Ali T, et al. Prospective study examining the use of thrombin-gelatin matrix (Floseal) to prevent post dental extraction haemorrhage in patients with inherited bleeding disorders. Int J Oral Maxillofac Surg. 2022;51(3):426-430. doi:10.1016/j.ijom.2021.07.018

Agende sua consulta inicial em Natal-RN

Se você tem von Willebrand ou outro distúrbio de coagulação e quer saber se o implante é um caminho para o seu caso, a primeira etapa é a consulta inicial com o Dr. Daniel Coutinho (CRO-RN 2966), no Tirol. Outras condições de saúde pedem planejamento parecido: veja também o que todo paciente cardíaco precisa saber e implante dentário e hemodiálise.

Cartas do Dr. Daniel Coutinho. Uma carta a cada 15 dias com um assunto como este, explicado com calma. Sem propaganda; para sair, é só responder SAIR.