De tempos em tempos aparece uma notícia: “primeiro implante feito por robô”, “dentista robô”, “cirurgia em 15 minutos”. Os pacientes me perguntam sobre isso com um misto de curiosidade e receio. “Doutor, isso é o futuro? O senhor vai ser substituído?” Eu dou risada, mas a dúvida é séria, e merece uma resposta com os pés no chão.
Neste texto eu conto o que um robô faz, o que ele não faz, o que os estudos mostram e o que eu perguntaria antes de aceitar qualquer tecnologia na minha boca. Sem fascínio e sem medo.
Resposta rápida: não, o robô não substitui o dentista. O implante robotizado usa um braço mecânico guiado por planejamento digital, que executa a perfuração com alta precisão de posicionamento. Mas o diagnóstico, o planejamento, a leitura da anatomia e as decisões diante do inesperado continuam sendo humanos. A tecnologia ajuda o cirurgião, mas não o dispensa. Mais importante do que o robô é quem o comanda.

O que o robô faz, em palavras simples
Tudo começa pela tomografia e pelo planejamento digital: o cirurgião define, no computador, onde cada implante deve ficar, com que inclinação e a que profundidade. Depois, durante a cirurgia, um sistema de navegação acompanha a posição do instrumento, e um braço robótico mantém a broca na trajetória planejada. O robô não decide onde colocar o implante. Ele executa, com mais regularidade, o que o cirurgião planejou.
É parecido com o piloto automático de um avião: ajuda muito, mas quem escolhe o destino e responde pela viagem é o piloto.
E a tal cirurgia de 15 minutos?
A notícia que mais circulou falava de um primeiro implante feito por robô, em Madri, concluído em cerca de 15 minutos. Eu trato essa história com cautela, por dois motivos. Primeiro, a rapidez de um implante isolado não diz nada sobre qualidade nem sobre o que acontece depois. Segundo, o tempo de uma cirurgia não é o que mais importa: o que importa é o planejamento, a técnica e o resultado em cinco, dez, vinte anos.
Rapidez é uma promessa fácil de fazer. Previsibilidade é uma promessa difícil de cumprir. Se alguém lhe oferece o implante “em 15 minutos” como o grande atrativo, pergunte o que acontece com o osso, com a gengiva e com a mordida depois.
O que os estudos mostram
Existe evidência de que as técnicas guiadas, de modo geral, colocam o implante mais perto do planejado do que a mão livre. Uma revisão sistemática publicada em 2026 comparou as modalidades: a cirurgia robótica teve os menores desvios, em geral abaixo de 1 milímetro de entrada e abaixo de 2 graus de inclinação, a navegação dinâmica ficou em um nível intermediário, a guia estática vem logo depois e a mão livre teve os maiores desvios. A precisão também dependia do local da boca, do apoio da guia e da experiência de quem operava.
Outra revisão de 2025 sobre sistemas robóticos em cirurgia bucomaxilofacial analisou 18 estudos e viu alta precisão e perfil de segurança favorável, mas apontou que a maioria dos estudos tem poucos pacientes e pouco tempo de acompanhamento. A certeza da evidência foi classificada como moderada a baixa.

E nos implantes zigomáticos?
Como o zigomático é a técnica mais exigente, é natural que se pergunte se o robô ajuda ali. Uma meta-análise de 2026 reuniu dez estudos, a maior parte feita em modelos de laboratório, com apenas dois estudos clínicos e um híbrido, num total de 185 implantes zigomáticos. O robô teve desvios menores que a navegação dinâmica, principalmente no ponto de saída e na inclinação. Mas os próprios autores dizem que a técnica está em fase inicial de uso clínico e que faltam estudos prospectivos e em pacientes.
Traduzindo: precisão melhor no laboratório, sinal promissor, evidência clínica ainda curta. Para uma cirurgia desse porte, a minha atitude é de interesse, e não de pressa.
O que muda para você, paciente
- Mais precisão de posicionamento, em teoria e em parte dos estudos, o que ajuda quando o osso é pouco ou a anatomia é delicada.
- Possível redução de tempo de cadeira, em alguns casos, mas não é o objetivo principal.
- Nenhuma garantia de resultado. Um implante bem posicionado ainda precisa de osso, de gengiva saudável e de manutenção.
- Mais uma ferramenta, e não uma pessoa. O raciocínio clínico segue sendo do profissional.
Perguntas que eu faria antes de aceitar qualquer tecnologia
- Quem planeja o caso, e como o plano é feito (tomografia, software, guia)?
- Quem executa a cirurgia, e qual a experiência dessa pessoa com esse sistema?
- Qual é a evidência clínica desse método para o meu tipo de caso?
- O que acontece se o plano precisar mudar no meio da cirurgia?
- Como será o acompanhamento depois, e quem responde por ele?
Se as respostas são claras, ótimo. Se a resposta é “é tecnologia de ponta, pode confiar”, desconfie. Tecnologia não é argumento. Resultado, planejamento e acompanhamento são.
O que não muda com nenhuma tecnologia
Algumas coisas são iguais, com robô ou sem robô. A tomografia vem antes. O planejamento é feito para o seu caso. Antes de qualquer cirurgia, eu peço o relatório de risco cirúrgico, feito pelo cardiologista, e exames de laboratório, como hemoglobina glicada, glicemia de jejum, hemograma e coagulograma. Se há sedação, quem a aplica é sempre um médico anestesista. E depois da cirurgia vêm as revisões, que são o que mais protege o implante a longo prazo.
Você pode ler mais sobre a evolução das técnicas em tecnologia em implantodontia e sobre planejamento em implantes dentários em Natal.
Três mitos sobre cirurgia com tecnologia
- “Com robô não tem erro.” Tem. O robô executa o plano, e se o plano tiver um erro, ele executa o erro com precisão. Por isso o planejamento humano é o coração do processo.
- “Com tecnologia, a recuperação é mais rápida.” Nem sempre. A recuperação depende do tamanho da cirurgia, da cicatrização de cada pessoa e dos cuidados depois. A tecnologia pode ajudar, mas não faz milagre.
- “Quanto mais moderno, melhor para mim.” Nem sempre. O que serve para o seu caso é a solução com evidência e adequada à sua anatomia. Às vezes a opção mais simples é a mais sensata.
Planejamento digital: a parte que você mais sente
O que mais mudou nos últimos anos, e que de fato muda a sua experiência, é o planejamento digital. Com a tomografia em 3D, o cirurgião enxerga o osso, os nervos, o seio da face e a posição ideal de cada implante antes de tocar na boca. Isso reduz surpresas e permite explicar o caso ao paciente com imagens, o que eu acho um ganho enorme de transparência.
Na consulta, eu mostro essa imagem na tela. Você vê onde está o osso, onde está o problema e onde pode ficar cada implante. A decisão deixa de ser abstrata e passa a ser algo que você consegue acompanhar. Isso, para mim, vale mais do que qualquer robô.
Por que eu não me empolgo, e por que eu não ignoro
Eu tenho curiosidade e respeito por quem pesquisa e desenvolve essas tecnologias, e acompanho a literatura. Ao mesmo tempo, procuro não vender o novo só por ser novo. Quando a evidência clínica amadurecer, e se o benefício para o paciente for claro, é natural que esses recursos entrem na rotina de quem opera. Até lá, o que me guia é o que se sabe, o que se mede e o que se confirma na boca de quem acompanhamos por anos.
Então, é o futuro?
Em parte, sim. A odontologia vai usar cada vez mais planejamento digital, navegação e, em alguns casos, robôs, e isso tende a trazer ganhos reais de precisão. Mas o futuro que me interessa não é um em que a máquina decide. É um em que a máquina ajuda quem decide. Entre o “Dr. Robô” e o dentista de carne e osso, eu prefiro a combinação: a precisão da ferramenta com o julgamento de quem examinou você, ouviu a sua história e vai acompanhar o resultado.

Perguntas frequentes
O que é o implante dentário robotizado?
É o uso de um sistema de navegação e de um braço robótico que auxiliam o cirurgião a posicionar o implante conforme o planejamento digital feito antes da cirurgia.
A cirurgia guiada por robô é mais precisa?
Em estudos de precisão, os sistemas robóticos tiveram os menores desvios em relação ao planejado. Mas a maioria dos estudos tem poucos pacientes e pouco acompanhamento, e a precisão sozinha não garante o resultado a longo prazo.
O robô substitui o cirurgião-dentista?
Não. O diagnóstico, o planejamento e as decisões durante a cirurgia continuam sendo do profissional. O robô executa o que foi planejado.
A tecnologia robótica é segura?
As revisões apontam perfil de segurança favorável, com ressalvas sobre o tamanho dos estudos. A segurança depende do sistema, de quem opera e do planejamento.
Existe robô para implante zigomático?
Existem estudos, a maioria em modelos de laboratório e com poucos pacientes. A técnica está em fase inicial de uso clínico.
Preciso de sedação na cirurgia com tecnologia?
Depende do caso e da vontade do paciente. Quando há sedação, ela é sempre aplicada por um médico anestesista.
Fontes
- Bali Y, Venugopalan S, Singh R, Kumar S. Accuracy of planned versus actual implant placement using different implant systems: a systematic review of angulation and positional deviations. J Maxillofac Oral Surg. 2026;25(5):1413-1423. doi:10.1007/s12663-026-03250-y
- Fan S, Singkhorn T, Sáenz-Ravello G, et al. The accuracy of robotic-assisted zygomatic implant placement: a systematic review and meta-analysis. BMC Oral Health. 2026;26(1). doi:10.1186/s12903-026-07816-7
- Ivanov SY, Muraev AA, Filatov SN, et al. Robotic surgical systems in oral and maxillofacial surgery: a systematic review and meta-analysis. J Clin Exp Dent. 2026;18(1):e116-e126. doi:10.4317/jced.63415
O robô é só uma das ferramentas de planejamento. Expliquei o que é o planejamento digital e o que a evidência mostra.
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